MARCELO FERRARI














15 Minutos de Xamã
(para Paulo Castro)

Alguém nos conta sobre um jardim
e imaginamos flores amarelas
até que a palavra rosa é pronunciada
pintando o quadro de carmim
Ontem você mudou de cor
Devo ter sentido o mesmo roxo no peito
Se não senti de fato, quis sentir
Por quinze minutos
Não os quinze minutos de Andy
Pois a fama é um raciocínio, não é xamã

Por quinze minutos de comunhão
Como nas minhas missas de infância
em que os adultos tagarelas
após colocarem uma rodela de biju na boca
se ajoelhavam em silencio translúcido
Ontem descobri o tamanho da sua cor
Se não fiz silencio, quis fazer
E agora o realizei

ROGER JONES



A PERSISTÊNCIA DA MEMÓRIA

Em algum lugar deve estar escondida a fábula do astronauta que sentia falta de sentir falta do que nunca faltou. Um dia sua infância não acabou. Do terraço de um edifício de pastilhas azuis partiu para o espaço, a bordo de uma nave mãe pequena, sensível, irreal e protetora. Levou consigo tão somente a atmosfera nítida, colorida e melódica dos seus últimos dias de criança. Esta longa trajetória sem direção resumia-se numa decisão inevitável de sua vontade: tornar-se o universo ou retornar ao mundo. O espaço o recebeu em lágrimas...

Mas nada está próximo quando não sabemos onde estamos.
Então quis retornar ao seu planeta:

"Eu quero querer de volta minha vida perdida...
e redescobrir a existência da minha história..."

O mundo o recebeu de braços abertos, amaciando sua queda com calor, carinho e futuro.
Então descobre satisfeito que o universo não é mais perfeito.
O destino não está contado.
A bolha etérea que envolvia o astro se desfez num átimo de coragem e contato.
O mundo é-o...
O que não há, não existe.
O que resiste, sobrevive. E morre.
O que sente, vive. E morre.
Só a memória persiste.

Carrega sobre seus ombros o peso da saudade do que nunca houve. Fora da nave sua voz é grave. Seu objetivo é oculto. Seu receio é adulto. Seus cabelos brancos são a contradição de sua inexistência. E seus olhos sofrem, pedem, querem, chamam, se aprofundam. E amam...

Seu medo abençoa a felicidade do imediato.
Agora há um homem onde a criança dormia para sempre.
A vida adormecida simula-se num cenário sem despedida.
Seu passado tinha botas, luvas, macacão e capacete.
Seu presente é um infinito carente.
Seu futuro é para sempre...

(foto: Claudia Fernandes)

MARCELO FERRARI








Sabedoria do 7º Dia

A coisa é mais Cayme
Menos Marilyn Manson
A coisa é mais mingau de aveia
Menos café expresso
A coisa é mais progesterona
Menos Viagra
A coisa é mais Platão
Menos Matrix
A coisa é mais Cafu
Menos fenômeno
A coisa é mais canabis
Menos nicotina
A coisa é mais Alameda Lorena
Menos Avenida Paulista
A coisa é mais chinelo
Menos gasolina aditivada
A coisa é mais Diário de Motocicleta
Menos Velozes e Furiosos
A coisa é mais small caps
Menos Big Brother
A coisa é mais “Foda-se”
Menos “Putaqueopariu!”
A coisa é mais domingo
Menos segunda feira

PAULO CASTRO

. .O Julgamento de Valerie. .



Valerie Solanis:
ela é a moça bonita,
tal problema, bonita demais
e precisava tanto ser assim
reconhecida
que criou a
"Sociedade
Para Castrar
Os Homens".
O Andy Warhol,
que também é a outra
moça bonita demais
na foto,
dava uma força tremenda
Pra Valerie
Pra Valeria
sempre tão chapada,
sempre tão bonita,
sempre tão sadomasoquista,
em um lugar que ela não queria
estar.
Pra Valerie
Pra Valeria
distante demais de casa,
longe demais dos pais,
na própria cabeça,
e ela recebia muita
força
do Andy-linda
principalmente,
do Andy
Andy
Andy
Hoje todos estão mortos
e o Andy era o homem
proibido pra
essa garota que era
tão bonita,
tão perfeita
e admirável,
esse foi o grande problema:

yyy A proibição yyy

a barra sobre o Desejo,
tanto que eu diria
até
que Valerie
Valeria
Valerie
é inocente de seu crime:
em um dia, ela entrou na Factory, o lugarzinho santo do Andy e ela estava armada e ela atirou diversas balas de não chupar em Andy, descarregou a arma, e o Andy, bela Andy, quase morreu de tanto sangue que ai meu Deus, perdeu, que ele perdeu um pedaço do fígado e um pulmão, e então a Factory ficou bem estranha depois disso e
Valerie
Valerie
Valeria
apareceu nos
15 minutos
de jornal
para submergir depois
e ninguém mais saber
dela,
sempre tão chapada,
sempre tão freira,
e foi indo assim
como "louca e
assassina"
com todos os
malucos do mundo
a chamando de
maluca
( isso não é pouca coisa, rapaziada !!!)
que a gente só sabe
depois que ela
morreu em 1988,
Valerie que
tentou
capar
Valeria
que tentou
capar
aquilo de Andy
aquilo que Andy
tinha, de que
ele tinha
nojo,
e lavava em água
benta,
mas deveria ficar
hipocritamente
duro,
vez ou outra,
e alguém me conta
alguma vez por
Valerie
Valeria
Valerie
Valeria
alguma vez
por ela ?
Amantes proibidos.
ela
Valerie
Valeria
só fez a justiça
da "Sociedade",
e eu defendo
Valerie
Valeria
por exigir aquilo
que era dela,
mas quem proibiu ?
quem foi que colocou
a trave na uretra ?
Valerie ?
Valeria ?
eu ?
ela ?



ROGER JONES



O UNIVERSO É A MENOR COISA QUE EXISTE

Às vezes acho que não existe epiderme que me proteja das sensações todas. Então excedo-me de sentir, no fluxo ingênuo de um despertar sem freio dos sentidos. Sinto, curiosamente, a dor. Sinto, descrente, amor. Sinto o que for preciso ou impreciso, no passado, no futuro, no claro, no escuro, num absurdo de vida ou de luto. Mas num minuto percebo-me como uma rocha protegida e fria, que a nada obedece, escondida no fundo insensível de um mar que ninguém conhece.

(foto: Claudia Fernandes)

MÔNICA MONTONE




















foto: Catarina Petro


:: Suicidas ::



Cuidado!
Os suicidas invadiram as ruas
O asfalto queima em chamas
Os camelôs berram
O trânsito não anda

Balas perdidas roubam vidas
Beijos picantes inocência
Há perigo em todas as esquinas

Mendigos dormem nas marquises
Meretrizes fazem pose para plebeus
O Rio está ao avesso
E os suicidas caminham lentamente

No topo dos dois irmãos
Há somente luzesGatos de qualquer barraco

Barrigas roncam na Rocinha
Traficantes acordam no Vidigal
Meninas de família trepam em troca de proseco
E os suicidas caminham...

Seco minhas lágrimas ao vê-los passar
Eles não sabem
Que por trás de cada estrela
Há um sonho pedindo para acordar

MARCELO FERRARI




















Livro do Autoconhecimento Humano
(em 10 páginas)

Sofremos até a página sete
Amamos o próximo até a página três
Temos certeza absoluta até a página dois
Gostamos de peixe cru até a pagina nove
Achamos a Julia Roberts bonita até a página cinco
Conversamos como adultos até a páginas seis
Pensamos na camada de ozônio até a página oito
Acreditamos no ser humano até a página um
Aceitamos o mundo como ele é até a página quatro
Julgamos sempre pela capa

PAULO CASTRO

( Bill Blake )




eu fiz uma caneta urbana até o dia, como o guerreiro que limpa a própria espada,
até o dia em que ela chegasse até mim, ela que estaria aqui pra redefinir as rotas
dos anjos e demônios e gnomos e duendes e gente que acredita nisso
dentro da urbanidade do hotel sexto andar de um hotel no centro do meu umbigo
de onde brotava uma flor indiana, que ao se abrir mostrava todos os deuses
importantes da minha vida e ela, que iria chegar, arrancaria as pétalas com os dentes
e engoliria e iria me devolver como matéria para a caneta urbana a ser escrita
num caderninho abençoado por um colar de açaí, na capa tudo azul,
no quarto do hotel,

depois que ela já chegou e era noite e gárgulas comiam ovos antecipados de páscoa
nos prédios ao redor, notamos que o neon do hotel iluminava nosso quarto sendo
obviamente uma aura colocada azul pelo cara que fez a reserva pra gente,
numas de bondade do humano demasiado hermano,
e as pixações dos manos nos quadros, com aquelas letras misteriosas de gangue,
brilharam com luz própria, desprezando a necessidade a priori de Sol,
e eram silogismos como : ESSA É PRA QUEM DUVIDA DI NÓIS,
entre outras, que colocavam o Mestre em seu devido e desprezível lugar :
um assaltante de carro,

lá de cima a gente, com ela já tendo chegado e termos trepado aproximadamente
3 vezes 3, via o procedimento do Mestre se fingindo de bêbado e cercando um carro de prata
um carro de Apolo sem cavalos, e as putas e famílias, esses tipos, junto com a cavalaria policial
passando por lá, eu e ela na sacada do fumacê, e eu liguei uma pomba do bem pra recepção:
- Um cara de calça jeans, camiseta vermelha e tênis branco está assaltando um Palio prata na frente da Camisaria Paulistana, chame a polícia.
- O senhor tem certeza ?
- Absoluta.
e claro que o Mestre se deu bem no pé e nada da justa, eu e ela batemos palmas e fizemos 3x3 + 1
pois estas coisas ficam na gente,

isso do sexo, quando é uma coisa sublime, os gárgulas comem até os bombons,
com olhos urbanos fixados na gente e no caderninho, esperando pra ver que tipo de
literatura espada iria sair de lá, entrando ali, pra poder sair gostoso de lá, e entrar numas,
Meu celular toca, é o Mestre convidando pra uma volta no seu possante novo e umas
pichadas pelas torres da Babel, garota muralha fácil, e eu tive um papo rápido com o Mestre,
ainda metendo e estocando e enfiando com força de isso-isso-isso-isso-iss-is-i, estamos ocupados, meu querido, arrume outros manos, que agora quando eu vou gozar por 4 dias
seguidos 3x3 + 2, não estou em posse das minhas faculdades malandrejeiras e outras árvores,
mesmo, nos seios dela, faço cafuné na maçã morena, o bico do seio com a mesma textura de
uma corda de violão,

e a gente mesmo que só foi continuando, e aqui o caderninho esgota apenas a sua pequenina nossa
primeira
página,
goteja
do pau
no asfalto,
deusa cota.

a a a a a a a a a a a a a

ROGER JONES



SAGRADO CORAÇÃO EM CHAMAS

Na páscoa assisto a procissão
Perdido entre a multidão
Quando vejo o Messias passar
Eu sinto meu corpo mudar
Transforma-se todo em madeira
Braços pernas e cabeça
Estático em forma de cruz
Só queima em meu peito uma luz...

Sagrado coração em chamas...

Soldados me erguem do abismo
Me jogam nos ombros do Cristo
Que em prantos de amor me abraça
Carrega com dor pela praça
Meu corpo de cruz que maltrata
O Filho de Deus que me arrasta
Sou morta madeira pesada
Mas meu peito está em brasa...

Sagrado coração em chamas...

Em frente à população
Cravam meu corpo no chão
O Cristo crucificado
Agora está preso em meus braços
Sua dor divina me aquece
E meu corpo de cruz amolece
Caímos no chão abraçados
Eternamente amarrados
Ele perdoou meus pecados
Mas deixou meu coração congelado

Sua condolência inflamou minha dor recente
E seu coração pascal dilacerou a minha mente...

(foto: Claudia Fernandes)

MÔNICA MONTONE














Foto: Elisandra Amoedo


:: verdade ::


A verdade não tem pena
Não tem peito
Nem coração

É uma labareda que cega
Um buraco vazio
Cheio de ecos
Onde a vida depositou os seus nãos

MARCELO FERRARI
















Pipocas e Pipoqueiros

O homem com capa de chuva
que vem andando pela rua do comercio
acredita na chuva
mas não acredita que chover
é um ato de amor

Por conta deste fato
que rima com sapato
um menino-engraxate
corta-lhe o caminho

O homem com capa de chuva
que vinha andando pela rua do comercio
vira a cabeça e 99% do seu destino
para um saquinho de papel colorido
que está sendo desdobrado
como o mesmo carinho de uma mãe
que arruma o cobertor do filho

Os olhos do menino
são as luzes do espetáculo

Pipoqueiros de vocação não morrem nunca
São feitos de chiclete
Apenas perdem o sabor
quando esquecemos de mastiga-los

As expectativas do menino
se alimentam dos estouros
e da manivela
que roda em câmera lenta

O pipoqueiro coloca a embalagem quente
entre as mãos miúdas do menino
e sorri
paternamente

O homem com capa de chuva
que vinha andando pela rua do comercio
sente uma gota dágua
deslizando pelo canto do olho
Ele acredita que começou a chover
mas não acredita que fazer pipocas
é um ato de amor

PAULO CASTRO




Essa

é

a Asia Argento,

complicado sempre

olhar uma foto dela

tem de peito, tem de

tatuagem, tem ela de

homem, tem de pêlos,

e toda imagem ( os filmes

são bárbaros ) dela diz

na cara das garotas que andam por aí :

Você não tem estilo, falta boquetear uma mosca,

falta ter perversão no piercing onde só se vê

baratinhas higienizadas por método doméstico,

onde se vê só orgulho de ter um pai herói,

uma necessidade fudida de História e Sentido da

Vida,

se vê, garota, quando te perde nas lounges,

achando-se vê só tipo cabelo estilo que gasta

dinheiro pra se fazer amiga beijinho do hair maker

e ganhar bala de yogurt da bichona.

é mais,

vê só se na banca de jornal você não fica

bem brava com quem nem sabe o nome, eu,

abraço tuas pernas e lambo

tua = vê = baratinha só de homens ocos ( T.S. El é uma

grife de jeans, pra falar a sua só vê língua ) mas isso

não acontece na banca magazine madrugada virada, nem no

Google, que vai te alucinar um pouco em cada

foto, até a medida da tua raiva por tomar tanto

café e precisar de clínicas de estética...

Note bem: Nunca lhe tratam como você acha que mereceria em um lugar de luxo. Por melhor que seja o acompanhante. O problema é você. E tu sabe que não, guria. O problema sou eu. Que nunca coloquei o pé nessa espelunca. Nem pra me fazer ONG e aparecer no samba feminista e colorette:

Brasil Brazil

o que é isso ?

O que é teu sonho com Veneza ? Paris ? Até Berlim ?

Câmera digital e água suja, moscas petulantes( mal sabe ) e você só sabe dizer "odeio", ah, você não tem

Paz nem Amor no coração, menina.

A imagem é um tipo de inteligência insuperável.

Ela pega no espelho.

Mas não aquilo que você faz no quarto, no book, no sofá, biquinho, abra as nádegas e fique quietinha pro cafetão pediatra.

Lá onde o tempo te passa e tu, guria, se acha algo por ser do sul ou do norte.

Sul de onde ? Norte pra onde ?

Sério.

Tenho prazer em dar uma

,tipos,

humilhadinha, palavra gostosa de dizer na sua língua,

Sem encostar a mão, óbvio,

como se fosse sua a melancolia que eu lhe adiciono-te,

quando se diz : vodka, anfetamina, trance music, lesbianismo, hype,

ah, deixa disso, moça ;

começa por baixo e fica por baixo.

é no baixinho que você me encontra

e um mundo bem diferente debaixo

da poeira da sala,

édipos varões cavalgando moscas nas

pontas das línguas poli minhas, com gotas bombom

=suíça petúnia=

do lixo estético sobrepujado, debaixo da poeira,

a sua cocaína não é a mesma

o seu relógio você não fica orgulhosa dele não,

é um objeto,

precisa de Amor no coração e Bondade, menina,

debaixo da poeira, que é aqui na passarela under,

tem Deus aplaudindo e pedindo silêncio,

me lembro delezinho pra zoar com uma marca que

merece alfinetada na coluna do blog que só

alguns têm acesso.

Agora vai sentir suas coisinhas e sonhos e vingancinhas, vai.

"Sou meio burrinha, não sabe ?"

O DJ Lacan já discotecou: - Não fui eu quem disse, loser !

A diversão sugada machuca o lixo

tira a pureza do gosto,

o creme, ai.

$$$$$"ver-se só, guria tu"$$$$$

( repita rápido isto agora várias rápidas vezes de olhos fechados : observação do escritor, pé de página )

MARCELO FERRARI

Vidáfio

Aqui jaz um homem
que escalou montanhas
Plantou soja
Fez fortuna
Alimentou milhões
Gerou empregos
Pagou salários
Foi famoso
Gravou disco
Teve filhos
Escreveu um livro
E morreu

Aqui jaz uma nação
Que triunfou
Venceu guerras
Elegeu governantes
Criou sua moeda
Importou
Exportou
Teve relações diplomáticas
Cobrou impostos
Produziu cientistas
Poetas
Piramides
Entrou pra história
E morreu

Aqui jaz um planeta
Com pastos
Florestas
Rios
Ocenos
Civilizações
Cardumes
Manadas
Camadas de atmosfera
Nove céus
E sete infernos
Que se chamou terra
E morreu

A jaz um Sol
Estrela da cena
Centro
Que deu vida
Deu tudo que tinha
Até que secou
E implodiu
E morreu

Aqui jaz uma galáxia
Palco de estrelas
Papel de parede
Script
Sala de bate papo
Conjunto matemático
Que conteve
Esteve contido
E morreu

Aqui jaz um universo
Útero de galáxias
Sois
Planetas
Plantas
Pernas
Olhos
Outros úteros
Que geraram outros universos
Que possibilitou
E morreu

Aqui jaz a vida
Eterna

ROGER JONES



EU SOU MUITO MAIS ANTIGO DO QUE EU

Disse-me Lady Sometimes, a dama do tempo:
"Você é muito mais antigo do que você.
Veja seus olhos ingênuos, suas mãos inocentes.
Veja seu corpo sem gravidade.
Veja seu sorriso invisível.
Veja seu suor, sua lágrima.
Sinta seu coração e seu sangue.
Veja-se por um instante, Astronauta Roger.
Tudo que você é, esteve no Big Bang..."


(foto: Claudia Fernandes)

MÔNICA MONTONE




















:: Verdades tortas ::


Minhas verdades são extremamente tortas
Por isso prefiro deixá-las para trás
Esquecê-las
Como velhos guarda-chuvas atrás das portas

Tudo que não me serve jogo fora
Papéis velhos
Restos de perfume
E-mails recebidos
Roupas apertadas

Se não jogo, esqueço!

Sentimentos antigos
Paixões estilhaçadas
Ideologias idosas
Mágoas

Abandono tudo isso na primeira lata!

Primeiro porque quero respirar
E aprendi que as pequenas coisas
[inclusive as verdades]
Nos deixam asfixiados
Parados na metade do caminho

Segundo porque quero viver
E entendi
Que quem muito guarda
Não transpira
Não renova
Não geme
Não sente
Nem goza
Não vibra

E se a vida é feita de momentos
Que direitos tenho eu,
De aprisioná-los, sem ser Deus?

MARCELO FERRARI

Tudo por 1,99

Com a mão direita
ele canta a música da revolução
Com a mão esquerda
coloca tijolos na parede da Matrix

Com a perna direita
ele chuta o pau da barraca
Com a perna esquerda
marcha no exercito da entropia

Com o olho direito
ele vê o trevo brotando no concreto
Com o olho esquerdo
analisa o extrato do banco

Com o coração direito
ele tem um motivo pra viver
Com o coração esquerdo
morre um pouco a cada dia

PAULO CASTRO


uma balada.




os caminhoneiros
nunca ouviram falar
de mim,
apesar de eu ter
cruzado o brazil
nos bancos
deles,
pouco sendo mesmo,
passageiro.

os restaurantes
que dos ônibus
iam os pobres e seus
salgadinhos com ramela
ainda
são os mesmos em que eu
parava.

na tv ou no rádio
nosso amigo caminhoneiro
era piada, pegava mesmo
no banheiro quieto
gota
de auto-estrada.

eu, menino estudante,
feio, mas lisinho,
contava que tava indo
ver a praia
até a língua inchada
e boca cheia.

tinha refrigerante
e salsicha empanada,
no balcão:
com o mindinho,
unha de vampiro,
acariciava o amor
no elástico do meu
pulso.

alguns choravam
ao me deixar deitado
já na areia, passivo,
outros tinham
ciúmes quando
pelo espelho
ainda me viam
de polegar
novamente
içado.




adeus
paulo
adeus.


[ pra caio fernando ( $ )
e JT LeRoy ( S ) ]

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